Servidores da Educação de Fartura denunciam falta de diálogo, sobrecarga e risco à segurança; documento expõe queixas contra atual gestão municipal, onde a vice-prefeita e primeira-dama são profissionais da Educação.
Um documento assinado por cerca de 50 servidores da Educação Municipal de Fartura — entre Auxiliares de Desenvolvimento Infantil (ADIs), monitores e motoristas — foi protocolado em 10 de outubro de 2025 na Secretaria Municipal de Educação. O material reúne um conjunto extenso de denúncias que apontam sobrecarga de trabalho, ausência de capacitação, precariedade estrutural, coação moral e fragilidades no atendimento às crianças.
O texto, entregue direto à secretária de Educação, Renata Amaro da Silva Meneguel, foi elaborado após meses de tentativas frustradas de diálogo. A reportagem acessou o documento, que detalha falhas operacionais, falta de comunicação interna e problemas que, segundo os servidores, se acumulam desde o início do ano letivo.
Promessas não cumpridas e comunicação considerada insuficiente
Os servidores afirmam que, no início da atual gestão, foram anunciadas medidas para ampliar a participação das equipes, fortalecer a comunicação e valorizar o funcionalismo. No entanto, quase um ano depois, o grupo afirma que essas promessas não se concretizaram.
Entre as queixas registradas:
- decisões importantes tomadas sem consulta às unidades escolares;
- demandas protocoladas que não recebem retorno;
- problemas estruturais que permanecem sem solução.
Para os trabalhadores, a falta de comunicação entre a Secretaria e as unidades tem gerado desgaste e sensação de insegurança nas equipes.
Atendimento a crianças atípicas: sobrecarga, falta de suporte e risco
O capítulo mais extenso do relatório trata do atendimento a crianças atípicas — entre elas estudantes com deficiência, TEA e outras necessidades específicas. Os relatos descrevem sobrecarga extrema e ausência de suporte técnico especializado.
Os pontos relatados incluem:
- ADIs sozinhos com turmas de até 21 crianças, incluindo alunos que precisam de acompanhamento individual;
- permanência de até 6 horas consecutivas com o mesmo grupo, sem rodízio;
- agressões recorrentes entre alunos, sem apoio especializado;
- orientações internas para evitar acionar o Conselho Tutelar em determinadas situações;
- falta de profissionais capacitados para elaborar e acompanhar planos individuais de atendimento.
Segundo os servidores, o município não estaria cumprindo as exigências da Lei Brasileira de Inclusão e da Lei Berenice Piana. Funções técnicas estariam sendo repassadas a profissionais sem formação adequada, o que consideram irregular e perigoso.
Capacitação insuficiente e descumprimento da Lei Lucas
O documento aponta também falhas na formação continuada das equipes. Os trabalhadores afirmam que nenhuma capacitação obrigatória foi ofertada em 2025, incluindo os treinamentos de primeiros socorros previstos na Lei Lucas (Lei nº 13.722/2018).
Outros apontamentos incluem:
- ausência de formação inicial para novos servidores;
- exclusão de ADIs, monitores e motoristas do Fórum Municipal de Educação de 2025;
- não entrega dos certificados referentes ao Fórum de 2024, prejudicando progressões funcionais.
Para os servidores, há diferença entre o que a Secretaria anuncia e o que efetivamente chega às unidades.
Sobrecarga, adoecimento e queda na qualidade do atendimento
Outro trecho do relatório descreve desgaste físico e emocional crescente entre ADIs e demais profissionais. O documento aponta jornadas intensas, falta de pausas e condições inadequadas de trabalho.
Entre os relatos:
- turnos de até 7 horas sem intervalos adequados;
- dificuldades até para usar o banheiro durante o expediente;
- turmas com até 40 crianças sob responsabilidade de um único profissional;
- distribuição desigual de funções, gerando sensação de favorecimento.
Os trabalhadores afirmam que tais condições têm provocado adoecimento, afastamentos e queda na qualidade do atendimento oferecido nas unidades escolares e de educação infantil.
Motoristas e monitores denunciam ociosidade forçada e longos intervalos
Motoristas e monitores relatam que deixaram de atuar nas unidades de ensino durante seus intervalos — prática adotada em anos anteriores e considerada importante para o apoio pedagógico. Segundo o documento, essa proibição fez com que alguns servidores passassem a ter intervalos de até cinco horas, ultrapassando o limite de três horas previsto em decreto municipal.
Segundo eles, as consequências foram:
- períodos de ociosidade forçada;
- interrupção de atividades educativas realizadas nos ônibus;
- redução do apoio às creches e escolas.
Frota escolar deteriorada e riscos à segurança das crianças
A precariedade da frota do transporte escolar é outra denúncia recorrente. O documento descreve falhas graves, como:
- bancos rasgados com estruturas metálicas expostas;
- cintos de segurança danificados ou sem travamento;
- defeitos em borrachas de vedação;
- estrutura interna comprometida;
- manutenção preventiva atrasada.
Motoristas afirmam que a situação coloca em risco a integridade das crianças, especialmente nas rotas rurais, e que os pedidos de manutenção não têm sido atendidos.
Relatos de coação e assédio moral
O relatório também registra episódios de coação e intimidação por superiores hierárquicos. Servidores dizem ter ouvido frases como:
- “Quem não estiver contente, exonere.”
- “Quem discordar será encaminhado ao jurídico.”
O documento afirma que o setor jurídico da Prefeitura estaria sendo usado como instrumento de pressão, e não de orientação. Há relatos de retaliações contra servidores que se recusaram a executar funções não compatíveis com o cargo para o qual prestaram concurso.
Servidores pedem resposta imediata e ações concretas
O documento termina com um apelo pela retomada do diálogo e pela adoção de medidas urgentes. Entre as solicitações estão:
- retorno oficial às demandas protocoladas;
- oferta de capacitação contínua e obrigatória;
- contratação de profissionais especializados;
- reorganização das rotinas de trabalho;
- manutenção emergencial da frota escolar;
- cumprimento da legislação vigente.
Até o fechamento desta reportagem, a Secretaria Municipal de Educação não havia se manifestado sobre as denúncias apresentadas.
Cópia do Documento emitido pelos profissionais do setor de Educação