A população farturense assiste, de forma pacífica, a uma das maiores provas de como um agente político sem senso de coletividade pode utilizar o mandato para benefícios e vantagens pessoais, ainda que de maneira camuflada e silenciosa.
Luiz Marcos de Souza, o Marcão do Haras, que chegou a querer ser chamado de “Marcão do Povo”, foi eleito com um discurso tido como revolucionário. Prometeu doar quatro anos de sua vida ao município, afirmou que não precisava do salário de prefeito e que o destinaria a entidades assistenciais, disse que acabaria com aluguéis, enxugaria a máquina pública e que seria gestor, não político. Recebeu apoio de parte da população e, principalmente, do empresariado, que acreditou no canto da sereia.
Após um ano de gestão e sucessivas lambanças administrativas, os poucos defensores que ainda permanecem ao seu lado alegam que o prefeito estaria em fase de “aprendizado”. A realidade, porém, é outra. Em apenas um ano, Fartura retrocedeu, entrou em rota de colisão institucional e se tornou motivo de chacota na região.
O chamado “Natal da União” escancarou a desorganização, a falta de planejamento e o desperdício de recursos públicos. O custo estimado é de R$ 744 mil e, a menos de dez dias do Natal, a decoração segue inacabada. A cidade apresenta enfeites queimados, pontos não finalizados e personagens que mais remetem ao Halloween do que ao espírito natalino esperado pela população.
Na tarde de ontem, um fato chamou atenção. Pelos canais oficiais, a Prefeitura Municipal e a Casa de Carnes Haras Piedade, empreendimento do próprio prefeito, divulgaram suas programações para os últimos dias do ano. Fica evidente que o empreendimento privado de alto padrão, com inauguração prevista para a próxima quinta-feira (18/12), contará com vários dias de grandes shows, em pleno centro da cidade, porém em espaço privado, possivelmente com cobrança de couvert artístico. Enquanto isso, os decks da Praça 9 de Julho permanecerão vazios, sem qualquer atração voltada ao povo. No perfil oficial da prefeitura, os poucos dias reservados para eventos públicos coincidem justamente com aqueles não utilizados pelo empresário.
O portal também recebeu a informação de que, em reunião com o prefeito, feirantes foram avisados de que deverão mudar o local de instalação de suas barracas. A medida, embora administrativa, causa estranheza. Alguns feirantes já perceberam que a mudança teria como objetivo não interferir na visibilidade do novo empreendimento privado.
Essas ações reforçam a percepção de que interesses privados estão se sobrepondo aos interesses coletivos. O povo e os trabalhadores passam a ter de se adequar ao novo empreendimento, quando o correto seria o inverso.
Fartura vive hoje um clima de tensão. Comerciantes relatam falta de ânimo para abrir suas lojas no período noturno, enquanto a população se desloca para municípios vizinhos, fortalecendo o comércio de fora. A cidade amarga um cenário de tristeza e esvaziamento econômico. Muitos dos comerciantes que apoiaram a campanha de Luiz Marcos já começam a pular do barco, movimento que também alcança vereadores, ex-prefeito, vice-prefeita e outras lideranças.
No fim, quem paga a conta do jogo de poder é a população. Quem mais precisa assiste a cidade definhar, enquanto outros se lambuzam com o sabor do poder.

