Arquivamento de CPI expõe engrenagem política que transforma denúncias graves em absolvições previsíveis
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Fartura assiste, mais uma vez, ao mesmo espetáculo desgastado: denúncias sérias, barulho inicial, promessas de rigor — e, no fim, um arquivamento frio que enterra qualquer expectativa de responsabilização. A chamada CPI da Garagem Municipal terminou exatamente como muitos já previam: sem consequências práticas, apesar de um conjunto de fatos que, no mínimo, exigiriam aprofundamento rigoroso.
A Comissão Parlamentar de Inquérito nº 001/2025 foi instaurada para apurar a atuação da empresa “Tucunaré” junto à frota municipal entre janeiro e março. O que se encontrou ao longo das oitivas não foi irrelevante: serviços executados sem contrato formal, manutenção de veículos públicos em condições precárias e relatos que apontam para uma rotina administrativa, no mínimo, permissiva.
Ainda assim, o relatório final preferiu o caminho mais confortável. Alegando ausência de provas robustas de fraude licitatória, a comissão recomendou o arquivamento do caso, livrando o prefeito Luiz Marcos de Souza de qualquer responsabilização no âmbito legislativo.
O problema não está apenas na conclusão, mas no percurso.
A relatoria ficou nas mãos de um vereador alinhado politicamente ao Executivo — e que já havia se posicionado publicamente em defesa da gestão antes mesmo do encerramento dos trabalhos. O relatório reconhece irregularidades administrativas, como a execução de serviços sem contrato, mas trata tudo como circunstancial, quase inevitável, esvaziando o peso dos fatos.
Enquanto isso, pontos críticos ficaram sem resposta.
Um motor pertencente à Prefeitura apareceu em uma oficina fora do município, em Assis, com explicações frágeis e nenhuma responsabilização concreta. A justificativa apresentada foi aceita sem maior resistência, como se o deslocamento e o reparo de um bem público pudessem ser tratados como mero erro operacional.
Mais grave: a própria CPI admitiu que ainda havia uma perícia pendente — análise de celulares que pode esclarecer eventuais vínculos e tratativas entre agentes públicos e a empresa investigada. Mesmo assim, decidiu encerrar os trabalhos. Na prática, optou por concluir sem ter todas as respostas.
O processo também foi marcado por decisões que ampliam a desconfiança. Um relatório divergente, apresentado por outros vereadores, sequer foi incorporado formalmente aos autos principais. Já um parlamentar citado no contexto das investigações participou normalmente das votações, sem qualquer registro de impedimento.
São detalhes que, isoladamente, poderiam ser tratados como falhas. Juntos, formam um padrão.
O resultado é um retrato incômodo: uma investigação política que reconhece problemas, mas evita consequências. Um rito que cumpre formalidades, mas não entrega respostas. Um sistema que parece funcionar mais para encerrar casos do que para esclarecê-los.
Enquanto isso, fora do alcance da Câmara, o caso continua vivo. O Ministério Público mantém a investigação em andamento, aguardando inclusive o resultado da perícia técnica ainda não concluída. É ali, e não no Legislativo, que pode surgir alguma resposta concreta.
Fartura, porém, já conhece esse enredo.
Entre denúncias, relatórios e arquivamentos, a cidade acumula episódios em que a suspeita é constante, mas a punição é inexistente. A cada novo caso, reforça-se a percepção de que há sempre um caminho institucional para diluir responsabilidades e normalizar o que deveria ser exceção.
No fim, o que resta não é apenas a dúvida sobre este caso específico, mas a consolidação de um modelo: investiga-se o suficiente para justificar o processo — nunca o bastante para produzir consequência.
E assim, mais uma vez, o escândalo termina como começou: com muito ruído, pouca resposta e um silêncio conveniente que fecha as cortinas sem constrangimento.