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Noventa anos de presença cisterciense em Itaporanga: um jubileu de fé, oração e esperança

A Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz celebra as Bodas de Álamo, recordando nove décadas de uma presença marcada pela oração, pelo trabalho e pelo serviço à Igreja. O jubileu reúne monges, bispos, sacerdotes e fiéis para agradecer a Deus por uma história que continua fecunda.

Em um clima de profunda ação de graças, a comunidade monástica da Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz, em Itaporanga, no interior paulista, celebrou os 90 anos da chegada dos monges cistercienses ao Brasil. O jubileu, conhecido como Bodas de Álamo, tornou-se ocasião privilegiada para recordar a fidelidade de Deus ao longo dessas nove décadas e renovar o compromisso da vida monástica com a evangelização, a oração e a hospitalidade.

Embora a Santa Missa Jubilar tenha sido celebrada em 24 de julho, as festividades alcançaram seu ponto culminante nesta quarta-feira, 5 de agosto, data que marca a fundação da comunidade monástica em Itaporanga. Nos dias que antecederam a celebração, um Tríduo Preparatório reuniu diariamente monges, sacerdotes, religiosos e numerosos fiéis em momentos de oração, preparando espiritualmente o jubileu.

A celebração eucarística de abertura foi presidida pelo cardeal Dom Paulo César Costa, tendo como concelebrantes o bispo Dom Eduardo Malaspina, o atual abade Dom Bento Gonçalves de Oliveira, filho de Itaporanga, e o abade emérito Dom Celso Lourenço de Oliveira, além da comunidade monástica, sacerdotes, seminaristas e centenas de peregrinos vindos de diversas regiões. Durante a liturgia, a memória agradecida voltou-se aos monges fundadores, aos benfeitores e a todos aqueles que, ao longo do tempo, edificaram a história espiritual da Abadia.

Após a belíssima celebração. a comunidade monástica ofereceu aos convidados, amigos e comunidade itaporanguense, uma recepção nas dependências da Hospearia do Mosteiro, onde foram servidos salgadinhos, refrigerante e bolo para comemorar os 90 anos de presença do monges em Itaporanga. Dom Abade Emérito Celso de Oliveira acolheu os presentes, fez um momento Mariano e abençoou a refeição. Dom Abade Bento, padres Roberto, João Crisóstomo e Alberico passaram de mesa em mesa cumprimentando e acolhendo os presentes.

Uma fundação nascida da esperança

A história da Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz teve início em 5 de agosto de 1936. Provenientes da histórica Abadia de Himmerod, na Alemanha, os primeiros monges chegaram a Itaporanga em meio às crescentes perseguições impostas pelo regime nazista. O Brasil tornou-se terra de acolhida para uma comunidade que desejava preservar a tradição cisterciense e continuar vivendo o ideal monástico inspirado na Regra de São Bento.

Entre os pioneiros encontravam-se o então prior Dom Atanásio Merkle, o irmão Lucas Mertens e outros religiosos que, unidos pelo espírito do ora et labora, iniciaram a construção do mosteiro com as próprias mãos. Os tijolos utilizados nas primeiras edificações foram produzidos pelos próprios monges em uma olaria instalada no Bairro Mosteirinho, sinal de uma comunidade que fez do trabalho uma expressão concreta da oração e da confiança na Providência.

Com a inauguração da ala frontal do mosteiro, em 1943, consolidou-se definitivamente a presença da Ordem Cisterciense em Itaporanga. Poucos anos depois, teve início a construção da Igreja Abacial São João Batista, projetada pelo arquiteto alemão Albert Bosslet, hoje considerada uma das maiores igrejas abaciais da América Latina e um dos principais marcos da arquitetura religiosa brasileira.

Uma herança que continua a frutificar

Ao longo de nove décadas, a Abadia tornou-se muito mais que um mosteiro. Sua comunidade assumiu a missão pastoral de paróquias da região, promoveu retiros espirituais, preservou a tradição do canto gregoriano e da liturgia monástica, além de desenvolver atividades agrícolas que sustentam a vida comunitária segundo o carisma beneditino. A espiritualidade cisterciense, marcada pelo silêncio, pela simplicidade e pela busca incessante de Deus, continua sendo testemunho vivo para a Igreja e para a sociedade.

Ao longo de sua história, a comunidade foi conduzida por abades que marcaram diferentes etapas de seu desenvolvimento. O fundador, Dom Atanásio Merkle, lançou os alicerces espirituais e materiais da Abadia. Seu sucessor, Dom Estevam Stork, fortaleceu a dimensão missionária e pastoral durante mais de três décadas. Em seguida, Dom Luís Alberto Ruas Santos promoveu um renovado impulso à espiritualidade cisterciense, enquanto Dom Celso Lourenço de Oliveira dedicou-se ao resgate da memória histórica e ao fortalecimento da identidade monástica. Atualmente, a comunidade é conduzida por Dom Bento Gonçalves de Oliveira, natural de Itaporanga, cuja eleição simboliza a maturidade de uma obra iniciada pelos monges vindos da Alemanha e hoje plenamente enraizada em solo brasileiro.

Celebrar as Bodas de Álamo é reconhecer que a história da Abadia Nossa Senhora da Santa Cruz continua sendo escrita pela fidelidade cotidiana de homens consagrados que fazem da oração, do trabalho e da hospitalidade um testemunho permanente do Evangelho. Noventa anos depois da chegada dos primeiros monges, permanece vivo o convite para que esta tradição continue iluminando a Igreja e despertando novas vocações para a vida monástica.