A possibilidade de uma greve dos coletores de lixo de Fartura, prevista para a próxima segunda-feira (20), expõe uma crise que vai muito além da coleta de resíduos. O impasse coloca em evidência uma decisão da Administração Municipal que, na avaliação dos trabalhadores, penaliza justamente aqueles que desempenham um dos serviços mais pesados, insalubres e essenciais para a população.
Na última quarta-feira, moradores registraram caminhões da coleta circulando com apenas um coletor em atividade, situação que chamou a atenção pela evidente sobrecarga de trabalho. Em diversos bairros, o lixo permaneceu acumulado nas calçadas por mais tempo do que o habitual, aumentando a preocupação dos moradores com os impactos na limpeza urbana e na saúde pública.
Segundo informações apuradas pelo Portal Notícias da Divisa junto a servidores do setor, o descontentamento teve início após uma reunião entre o secretário municipal de Meio Ambiente, Márcio Aparecido de Almeida Campos, e o secretário da Administração, José Marcos Dealis. Conforme relataram os trabalhadores, foi comunicado que as horas extras tradicionalmente realizadas pelos coletores deixarão de ser remuneradas a partir deste mês.
Para os servidores, a medida representa uma redução significativa na remuneração de uma categoria que já recebe um dos menores salários da estrutura administrativa do município. Muitos afirmam que as horas extraordinárias compensavam jornadas prestadas em feriados, pontos facultativos e períodos de maior demanda, permitindo uma renda minimamente compatível com o desgaste físico da atividade.
Os coletores exercem uma função que poucos estariam dispostos a desempenhar diariamente. Trabalham sob chuva, sol intenso, frio, contato permanente com resíduos domésticos, materiais perfurocortantes, animais e agentes biológicos. São profissionais que garantem diariamente a limpeza da cidade e ajudam a preservar a saúde da população, embora muitas vezes permaneçam invisíveis aos olhos da administração.
Enquanto isso, servidores ouvidos pela reportagem afirmam existir uma realidade completamente distinta dentro da Prefeitura. Segundo eles, ocupantes de cargos comissionados e funções de confiança estariam recebendo elevados valores em razão de horas extras e gratificações, situação que, caso confirmada, evidencia uma disparidade que merece total transparência por parte da Administração.
Um dos coletores, que pediu para não ser identificado por receio de sofrer represálias, resumiu o sentimento predominante entre os colegas.
“Chega a ser humilhante o que estão fazendo com a gente. O prefeito prometeu que seria um gestor do povo, mas está lotando a Prefeitura de cargos e beneficiando seus conchavos políticos.”
O servidor também fez um apelo ao Poder Legislativo.
“Esperamos que os vereadores abracem a nossa causa e lutem por nós, porque com o pessoal do prefeito não temos mais esperança.”
Caso a paralisação seja confirmada, os principais prejudicados serão os moradores. A interrupção da coleta favorece o acúmulo de resíduos, a proliferação de insetos e animais, além de comprometer diretamente a saúde pública. No entanto, atribuir aos trabalhadores a responsabilidade exclusiva pelos transtornos seria ignorar a origem do problema.
Nenhum servidor reivindica privilégios. O que os coletores afirmam buscar é o reconhecimento de um trabalho indispensável, exercido diariamente em condições extremamente desgastantes. Valorizar quem mantém a cidade limpa não deveria ser visto como gasto, mas como investimento em um serviço essencial.
A situação ganha contornos ainda mais delicados quando comparada aos recentes investimentos realizados pela Prefeitura. Dias após a realização da FEMUS 2026, cujos custos, segundo informações ainda em apuração pelo Portal Notícias da Divisa, podem alcançar aproximadamente R$ 2 milhões entre shows, estrutura e serviços, trabalhadores afirmam que não compreendem como faltam recursos para manter a remuneração de quem presta um serviço básico à população.
Outro fator que desperta questionamentos é o encaminhamento, pelo prefeito Marcão do Haras, de um projeto de lei solicitando autorização da Câmara Municipal para abertura de crédito suplementar de aproximadamente R$ 900 mil destinado ao pagamento da folha salarial do mês de julho.
Embora suplementações orçamentárias sejam instrumentos previstos na legislação, a necessidade de reforçar recursos para uma das despesas mais previsíveis da administração pública suscita dúvidas sobre o planejamento financeiro adotado pela gestão municipal. A folha de pagamento é conhecida previamente e integra o orçamento anual. Por isso, a necessidade de suplementação no meio do exercício inevitavelmente gera questionamentos quanto à execução orçamentária e ao controle das despesas.
Diante desse cenário, espera-se que a Administração Municipal priorize o diálogo e apresente esclarecimentos à população. Uma cidade não funciona sem quem recolhe diariamente toneladas de resíduos das ruas. São trabalhadores que enfrentam riscos, esforço físico intenso e desempenham uma atividade indispensável para a qualidade de vida da comunidade.
Economizar justamente sobre aqueles que recebem os menores salários e executam um dos serviços mais essenciais da Prefeitura transmite uma mensagem preocupante: a de que o esforço de quem sustenta diariamente os serviços públicos vale menos do que os privilégios concedidos a setores mais próximos do poder.
Até o fechamento desta reportagem, a Prefeitura Municipal de Fartura não havia se manifestado sobre o corte das horas extras nem sobre a possibilidade de paralisação da categoria.
O Portal Notícias da Divisa mantém o espaço aberto para que a Administração Municipal apresente sua versão dos fatos, esclareça os critérios adotados e informe quais medidas pretende tomar para evitar a interrupção de um serviço essencial à população.
Lixo não coletado nos Bairros de Fartura
Vídeo mostra coletor trabalhando sozinho pelas ruas de Fartura
Moradores preocupados com a falta de coleta seletiva





