Prefeito pretende contratar R$ 20 milhões para obras de infraestrutura; vereadores pedem documentos técnicos e demonstram preocupação com impacto da dívida nos próximos anos
Na noite desta quarta-feira (12), a Câmara Municipal de Fartura realizou audiência pública para discutir a possibilidade de o município contratar um novo financiamento, desta vez no valor de R$ 20 milhões, destinado a obras de infraestrutura.

A operação pretendida pela administração do prefeito Marcão do Haras ainda dependerá da análise e autorização do Poder Legislativo.
Este seria mais um financiamento contratado pela atual gestão. Em 2025, a Prefeitura já havia realizado uma operação de crédito junto à Caixa Econômica Federal, no valor de R$ 5 milhões, destinada à construção de unidades habitacionais.
Participaram da audiência o presidente da Câmara, Bruno Guazzelli, e os vereadores João Buranello, Juliano Damásio, Henrique Lucarelli, Sildemar Fabro e Léo Maia.
A audiência foi divulgada com pouca antecedência, o que resultou em baixa participação popular. Em contrapartida, o plenário contou com presença expressiva de secretários municipais e servidores comissionados da Prefeitura.
Embora a presença de integrantes da administração tenha sido evidente, qualquer afirmação de que houve convocação para “blindar” politicamente a gestão depende de comprovação. O fato objetivo é que representantes do Executivo ocuparam parte significativa do público presente.
PROMESSA DE SEIS MESES AINDA AGUARDA SOLUÇÃO
Um dos pontos que chama atenção na discussão sobre o novo financiamento envolve os bairros Jardim da Serra I, Jardim da Serra II e Marli Meneghel.
Durante a campanha eleitoral de 2024, o então candidato Marcão do Haras utilizou suas redes sociais para criticar as condições do lajotamento desses bairros e afirmou que resolveria o problema nos primeiros seis meses de sua administração.
A promessa teve peso político durante a campanha. Muitos moradores acreditaram que o problema seria resolvido em apenas seis meses e confiaram seu voto ao então candidato. Passados aproximadamente um ano e oito meses do início do mandato, porém, a solução prometida ainda não foi concretizada.
Agora, a administração pretende utilizar recursos de um financiamento de R$ 20 milhões para executar obras de infraestrutura. Durante a audiência, o prefeito também informou que uma parcela desse valor deverá ser destinada à infraestrutura do Distrito Industrial II.
A situação tem provocado críticas e frustração entre moradores que acreditaram na promessa eleitoral. O principal questionamento é que uma obra anunciada como compromisso de governo poderá, na prática, ser realizada por meio de endividamento público, cuja conta será paga pelo próprio município ao longo dos próximos anos, com juros e encargos.
Entre os moradores contrários à operação, há ainda questionamentos sobre a busca por outras fontes de recursos. Antes de contratar uma dívida dessa dimensão, cobram da administração esclarecimentos sobre quais esforços foram realizados para captar recursos a fundo perdido, convênios e transferências junto aos governos Estadual e Federal, alternativas que poderiam reduzir o impacto financeiro sobre os cofres municipais.
Assim, uma promessa apresentada durante a campanha como solução para os primeiros seis meses de governo chega ao segundo ano da administração ainda pendente e, caso o financiamento seja aprovado, poderá ser executada com dinheiro emprestado, deixando para o orçamento municipal dos próximos anos o pagamento da conta.
DE ALIADOS NA ELEIÇÃO A EMBATE NA AUDIÊNCIA
A audiência também foi marcada por momentos de tensão entre o prefeito Marcão do Haras e o presidente da Câmara, Bruno Guazzelli.
Bruno, que esteve politicamente alinhado ao atual prefeito durante o período eleitoral, apresentou questionamentos sobre as condições da operação de crédito e seus possíveis impactos nas finanças municipais.
Durante a discussão, o prefeito elevou o tom e chamou o presidente da Câmara de “mentiroso”. Bruno buscou prosseguir com seus questionamentos, mas teve sua manifestação interrompida em diferentes momentos pelo prefeito e também por integrantes da administração presentes no plenário.
O episódio evidenciou o distanciamento político entre dois agentes públicos que estiveram no mesmo campo durante a eleição municipal de 2024.
PREOCUPAÇÃO COM UMA CONTA QUE PODE CHEGAR A R$ 32 MILHÕES
Entre as principais preocupações apresentadas durante a audiência está o impacto que o financiamento poderá produzir nas contas públicas nos próximos anos.
Segundo informações apresentadas durante a discussão, a operação prevê um período de dois anos de carência antes do início dos pagamentos. Considerando juros e demais encargos financeiros, foi mencionado que o desembolso total do município ao longo do contrato poderá chegar a aproximadamente R$ 32 milhões.
Esse valor, no entanto, deverá ser confirmado a partir da documentação técnica e das condições definitivas da operação de crédito.
De acordo com o presidente Bruno Guazzelli, os questionamentos apresentados durante a audiência tiveram como objetivo obter informações suficientes para que o Legislativo possa avaliar as consequências financeiras da operação.
A preocupação manifestada é que uma dívida dessa dimensão possa, futuramente, reduzir a margem financeira do município e impactar investimentos e serviços em setores essenciais como Educação, Saúde e Assistência Social.
Uma operação de crédito de R$ 20 milhões não representa recurso gratuito. Trata-se de uma dívida que deverá ser paga pelos cofres públicos ao longo dos próximos anos, acrescida de juros e demais encargos previstos no contrato.
Por isso, além de discutir quais obras serão executadas, a Câmara deverá analisar a capacidade financeira do município para assumir esse compromisso sem comprometer o equilíbrio das contas públicas.
VEREADORES VÃO SOLICITAR DOCUMENTOS ANTES DE DECIDIR
Os vereadores informaram que solicitarão à Prefeitura documentos e informações técnicas antes da análise e votação de eventual projeto autorizando a contratação do novo financiamento.
Entre os pontos que deverão ser avaliados estão a taxa de juros, prazo total da operação, período de carência, quantidade e valor das parcelas, custo efetivo total, garantias oferecidas, capacidade de pagamento do município, cronograma das obras e projeção do impacto da dívida nos próximos exercícios financeiros.
Os parlamentares também deverão buscar informações sobre a atual situação financeira da Prefeitura e os demais compromissos já assumidos pelo município.
A análise desses documentos será fundamental para que a Câmara possa avaliar não apenas onde os R$ 20 milhões serão investidos, mas principalmente quanto essa operação efetivamente custará ao contribuinte e qual será o impacto da dívida para as próximas administrações.
O debate sobre o financiamento, portanto, está apenas começando.
Caso a proposta avance, caberá aos vereadores decidir se a realização imediata das obras justifica a contratação de uma dívida milionária e se Fartura possui capacidade financeira para assumir esse compromisso sem prejudicar investimentos e serviços essenciais.
A população, por sua vez, deverá acompanhar uma questão central: se obras prometidas durante a campanha serão viabilizadas por meio da capacidade de articulação do governo para buscar recursos ou por uma dívida que ficará para o município pagar nos próximos anos.